Agricultura familiar: o pilar silencioso que move a economia do Rio Grande do Sul
10 de outubro de 2025A agricultura familiar, frequentemente vista sob uma lente puramente social, é, na realidade, um dos motores econômicos mais robustos e resilientes do Rio Grande do Sul. Longe de ser um mero complemento ao agronegócio de larga escala, este segmento representa a base da segurança alimentar, a principal fonte de ocupação em inúmeros municípios e um poderoso vetor de distribuição de renda no estado.
Analisar o impacto da agricultura familiar no RS é compreender a capilaridade de sua contribuição, que se manifesta desde a mesa do consumidor até o desenvolvimento econômico local.
- O motor da geração de renda e emprego no RS
O Rio Grande do Sul se destaca no cenário nacional pelo número expressivo de estabelecimentos de agricultura familiar, que superam a marca das 300 mil propriedades, segundo dados de órgãos como o IBGE e a Emater/RS.
- Oportunidade de permanência das pessoas no campo: a principal função socioeconômica deste setor é a manutenção da vida e da atividade produtiva no interior. Milhões de gaúchos dependem direta ou indiretamente desta atividade, resultando em uma das menores taxas de êxodo rural do país nas regiões mais fortes.
- Geração de riqueza local: o faturamento anual da agricultura familiar gaúcha movimenta bilhões de reais. Diferente de grandes commodities, grande parte desta receita circula no comércio e nos serviços dos pequenos e médios municípios, gerando um efeito multiplicador que dinamiza economias locais e impulsiona a arrecadação municipal.
- Garantia de segurança alimentar e diversidade produtiva
A diversidade da produção familiar é a chave para a segurança alimentar do estado. Enquanto o agronegócio se foca em commodities como soja e milho, a agricultura familiar garante o suprimento da maior parte dos alimentos consumidos diariamente pelos gaúchos:
- O abastecimento da mesa: a produção de hortigranjeiros, leite, aves, suínos e a maior parte do arroz irrigado vêm, predominantemente, das pequenas propriedades. Sem esse pilar, a cadeia de abastecimento seria significativamente mais vulnerável.
- O valor da agregação: em vez de apenas produzir o básico, o setor tem investido cada vez mais em agroindústria familiar, transformando a matéria-prima em produtos de maior valor agregado, como queijos artesanais, embutidos, vinhos e geleias. Essa verticalização não só aumenta a renda das famílias, mas também fortalece a marca de qualidade dos produtos gaúchos.
- Sustentabilidade e resiliência ambiental
Embora a escala seja menor, a gestão da terra na agricultura familiar está intrinsecamente ligada à sustentabilidade. A tradição de cultivar em pequenas glebas e a diversificação de culturas favorecem práticas de manejo que protegem o solo e a biodiversidade.
Em um contexto de mudanças climáticas e necessidade de transição para modelos mais sustentáveis, a agricultura familiar oferece um know-how valioso em:
- Uso eficiente da água.
- Conservação de sementes e espécies nativas e crioulas.
- Produção orgânica e com viés agroecológico, atendendo a uma demanda crescente do mercado por alimentos saudáveis e rastreáveis.
Investir no futuro do RS é investir no campo familiar
O impacto da agricultura familiar transcende a soma de suas produções. É um fator de equilíbrio social, um garantidor de emprego e renda no interior e a fonte primária da diversidade alimentar.
Para o Rio Grande do Sul, reconhecer e potencializar este segmento não é apenas uma questão de justiça social, mas uma estratégia inteligente de desenvolvimento econômico. Políticas públicas focadas em inovação, acesso a crédito, assistência técnica de qualidade e garantia de mercados (como o Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE e o Programa de Aquisição de Alimentos – PAA) são essenciais para transformar o gigante silencioso em um motor de crescimento ainda mais robusto e duradouro para todo o estado.