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Panorama: J. D. Rockefeller e o Engraxate

31 de agosto de 2020

30 de agosto de 2020

Marco Antônio dos Santos Martins(*)

Não há dúvida de que o ano de 2020 está sendo recheado de fatos, no mínimo, estranhos. Nesta semana, enquanto assistia a um vídeo na internet, percebi que ele foi interrompido duas vezes por um anúncio de um “especialista” que recomendava a compra de ações e fundos imobiliários. Em outro momento, em um ambiente jovial e descontraído, os anúncios garantiam que a queda da taxa Selic não deveria preocupar, bastava comprar esta ou aquela ação, este ou aquele fundo de investimento no exterior, que os ganhos seriam expressivos e seguros.

Nos Estados Unidos, alguns influencers digitais, com mais credibilidade nas recomendações de ações, apresentam um curriculum com poucas horas dedicadas à contabilidade, finanças, administração e matemática. Enquanto os órgãos reguladores examinam este assunto e tentam encontrar o limite entre a livre manifestação nas redes sociais e o papel destes “profissionais” como vendedores de produtos de investimentos, ficamos a refletir se esta nova modalidade de especialistas encontrou a “fórmula infalível para fazer fortuna com ações”.

Enquanto não há resposta para a questão, cabe lembrar uma das tantas lendas sobre a crise de 1929: a conversa de J. D. Rockefeller, que em 1870 fundou a Standard Oil Company, com seu engraxate.

A quebra da Bolsa de Nova York, em outubro 1929, marcou o fim de uma era de euforia e prosperidade na década de vinte e preparou o cenário para uma depressão mundial que, dentre outras coisas, na Segunda Guerra Mundial.

Como fazia toda quinta-feira, naquela manhã de outubro de 1929, o mítico bilionário do petróleo J. D. Rockefeller encontrou seu engraxate, com quem gostava de conversar sobre trivialidades. Enquanto lustrava o couro, o garoto olhou para o homem mais rico do mundo e disparou: “Fiquei sabendo de uns papéis que vão subir pra valer, senhor”. Rockefeller dobrou o jornal, fitou o guri e, ao voltar ao escritório, vendeu boa parte de seus papéis na Bolsa de Valores de Nova York.

“Se o menino que lustra meus sapatos sabe tudo sobre o mercado, então algo muito errado está acontecendo”, afirmou. Uma semana depois, no dia 24 de outubro, que ficou conhecido como “quinta-feira negra”, a Bolsa de Nova York iniciava uma traumática queda, levando milhares de pessoas à falência. Bancos e indústrias foram arruinados. Pequenos investidores também foram à bancarrota. Eram professores, garçons, datilógrafos. Gente que havia sido atraída para o mercado de ações numa época de deslumbramento, em que consolidava o American way of life e ficou conhecido como Roaring Twenties.

É bastante provável que a história de Rockefeller, que se safou razoavelmente ileso da quebra, seja lenda – criada por ele ter sido um dos poucos investidores a não perder muito dinheiro. Fato é que, nos anos seguintes, engraxate era a profissão que mais crescia em Manhattan, enquanto os Estados Unidos perdiam metade do PIB e a taxa de desemprego atingia 27%.

Em tempos estranhos como os atuais, onde a economia real ainda tem dificuldades de encontrar a sua retomada e o mercado comemora o impacto do enorme aumento de liquidez sobre os preços dos ativos reais, é importante manter a racionalidade na estruturação da carteira de investimentos, compreendendo os fundamentos das empresas e sua capacidade de sustentar elevadas taxas de crescimento dos fluxos de caixa, garantindo um bom nível liquidez e de diversificação, principalmente no caso do investidor brasileiro, que está fazendo alocações de investimentos com inflação e juros reais baixos, algo que não ocorria há décadas. Assim, em meio a incertezas, o investidor está sendo compelido a assumir mais risco, desconhecendo, em muitos casos, as características dos produtos e seu próprio perfil de apetite ao risco.

O mercado financeiro brasileiro iniciou a semana com otimismo, operando acima dos 102.000 pontos, no entanto, na quarta e quinta-feira, recuou para faixa dos 100.000 pontos, por conta do risco fiscal, recuperando o ânimo na sexta-feira, com bom humor internacional e a redução da pressão sobre o Ministro da Economia. O IBOVESPA fechou em 102.143 pontos, com uma pequena valorização de 0,61% na semana. Na mesma lógica, o dólar ptax recuou e fechou a semana cotado em R$ 5,4679, com queda de 2,47% na semana.

A próxima semana parece que será mais uma vez influenciada pelos anúncios de Brasília em relação ao comportamento das contas públicas, principalmente em relação ao anúncio do Programa Renda Brasil e à elaboração da peça orçamentária para o ano que vem, onde se tentará conciliar vários interesses, em alguns casos antagônicos, como a visão liberal dos técnicos do Ministério da Economia e os interesses dos políticos do “Centrão”.

Já em relação a Covid-19, de acordo com o boletim do consórcio dos veículos de imprensa, o Brasil registrou 15.151 novos casos e 398 novas mortes por coronavírus este domingo, atingindo 3.862.116 ocorrências e 120.896 óbitos.

A média móvel de óbitos, por sua vez, é de 875, a menor desde 21 de maio. O índice caiu constantemente ao longo da última semana. A “média móvel de 7 dias” faz uma média entre o número de mortes do dia e dos seis anteriores. Ela é comparada com média de duas semanas atrás para indicar se há tendência de alta, estabilidade ou queda. O cálculo é um recurso estatístico para conseguir enxergar a tendência dos dados abafando o “ruído” causado pelos finais de semana, quando a notificação de mortes se reduz por escassez de funcionários em plantão.

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  1. D. Rokefeller vendeu suas posições contrariando a opinião de muitos especialistas que afirmavam com convicção que os Estados Unidos haviam encontrado a fórmula de crescimento sustentado até o infinito.

(*) Professor do DCCA da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, Doutor em Administração, com ênfase em Finanças e Mestre em Economia pela UFRGS.